Sim, já tinha perdido quase 12kg! grrrr

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Natal, família e comida


A miúda da foto acima sou eu, com uns nove ou dez anos, aí por volta de 1980.
(Convém dizer que a data para perceberem que a roupa era mesmo assim estranha!)
E porque é que meti esta foto? Porque foi mais ou menos nesta fase que comecei a ser tratada como gorda na minha família materna. O meu primo, um magricela a quem eu subjugava facilmente nas brincadeiras, de vingança começou a tratar-me por “saco de batatas”. Exceptuando os meus pais, toda a gente achou piada à coisa, até porque eu era nitidamente gordinha. Para ser mais exacta: eu era a criança mais gorda da família e ninguém deixava de me dizer isso.

E agora vocês perguntam… “Mas olha lá, tu não te enganaste na foto? Essa é duma criança perfeitamente normal.”

A verdade é que eu era uma criança normal. Tive foi o azar de nascer numa família onde ser gordo era e é inadmissível. Onde a comida é encarada como funcional, já que se tem que sobreviver, mas enfim… nada de lhe dar importância.
Raramente vi a minha avó sentada à mesa, tenho um tio que devo ter visto comer umas 3 ou 4 vezes na vida. O outro come bastante… quando se lembra, o que quer dizer que raramente come mais do que duas vezes num dia.
O meu primo magricela não gostava de comer e a idiota da minha tia não via nada de mal no assunto, afinal era adolescente, tinha mais coisas em que pensar do que em comida. Para perceberem: só quando o rapaz desmaiou aos 16 anos, com 1.92 e 65 kg e o médico lhe disse que ele estava bastante doente, é que ela percebeu que ele não era apenas “magro”. Há vinte anos atrás, era raríssimo encontrar rapazes com anorexia nervosa. O meu primo era dos pouquíssimos do país. A mãe dele, sempre que chega aos 55 kilos jejua, faz “o que for preciso”. Quando aos 40 e poucos anos teve que fazer uma histerectomia e engordou horrores (comenta-se na família que chegou a pesar 65, coitadinha…) simplesmente não saía de casa com vergonha. Não faço ideia do que fez para perder os quilos, mas dieta saudável não foi de certeza.

A outra tia? Teve um filho aos 18 e recuperou logo a forma. O segundo teve-o aos 35 e a coisa já não correu tão bem, já não era magrinha, era normal. Ora a minha tia nunca quis ser “uma vaca gorda”. Para encurtar a história: entrou numa de jejuns, seguidos de períodos de chás e torradas. Ocasionalmente uma sopa, um peixe grelhado. Mas quase todos os dias bebe um copo de leite, do mal o menos.
Tem 60 anos, uns 40 kilos, anemia crónica, problemas renais e cardíacos. Volta e meia vai parar ao hospital subnutrida. O diagnóstico? anorexia nervosa, intercalada de fases de bulimia. Conseguiu a rara proeza de se tornar anoréxica depois dos quarenta anos.

Por razões que não interessam agora, cresci mais liga à família materna do que à paterna, gente absolutamente normal, capaz de comer três tipos de doces numa festa. Tem uns dois ou três “focos” de gordos, mas 80% da família é normal. Uns por natureza, como o meu pai e alguns irmãos, outros por disciplina, quanto mais não seja pelo medo aos AVC e problemas cardíacos que ensombram o historial genético da família.

Cresci duma forma verdadeiramente bipolar: na família materna era gordinha e gulosa (era capaz de comer dois pães seguidos!), na família paterna era magra e faziam mil e um malabarismos para me convencerem a comer carne, já que eu praticamente só gostava de peixe. Se eu comesse um segundo pão era porque “estava a crescer”. Uma tia velhota do meu pai fazia uma broa fantástica e guardava sempre o pedaço mais bonito para “a menina, que coitadinha, é muito biqueira”.

Mas como convivia mais com a família materna, estava mesmo convencida que era gorda. Pior: tinha mamas, coisa pouco habitual por aquelas bandas. Agora olho para fotos da adolescência e percebo que não era gorda porra nenhuma.

Só depois dos vinte anos, quando os meus primos começaram a namorar e casar é que eu percebi mesmo que eles é que não eram normais. Lembro-me de comentarem que o meu primo namorava com uma gorda e quando a vi tive um choque do caraças: era mais ou menos como eu de peso, mas com uma figura de ampulheta invejável.
Casaram, são felizes, mas volta e meia ela vai comer fora das vistas do meu primo. Não que ele a proíba de comer, claro. Mas o olhar dele de horror perante uma tosta mista é verdadeiramente irritante. Dá vontade de lhe pespegar com o queijo quente nas trombas!
Aliás, foi esta prima emprestada que me disse um dia “olha… não é que sejam más pessoas, mas não são normais. A relação deles com a comida é doentia e eu não paciência para os aturar à mesa”.

E isto leva-me às festas de Natal e afins: como ninguém tem paciência para cozinhar (nem para comer, carago!), compra-se um leitão assado, umas frutas, os bolos típicos e pronto. A mesa não chega para todos? Claro que não vão buscar outra! Simplesmente, comem à vez. Nunca vi toda a gente sentada à mesa a comer… quando muito cirandam à volta da mesa, petiscam e tal. Estar “alapado” à mesa é coisa de gente glutona.
Tirando a minha mãe, ninguém naquela família cozinha decentemente. Vivem de sopa (a única coisa que toda a gente sabe fazer!), fruta, leite e queijo. E café, litros de café.

No meio de tudo isto, tento encontrar o meu caminho. Se por um lado saio à família paterna e gosto de comer, por outro, não escapei à herança materna: não gosto de ser gorda, odeio ver corpos balofos e não acredito lá muito que se possa verdadeiramente ser feliz com muitos kilos a mais.

E sabem que mais? Este Natal vou comer rabanadas e pão-de-ló. Mas vou-o passar com os meus pais, longe da paranóia da família materna e das mesas fartíssimas da paterna.

Equilíbrio, é isso que procuro!

ps - a mami ligou, a "prima Rosa", herdeira do talento para cozer broa da "tia Rosa", mandou uma broa de milho e centeio linda "pra menina". Tou lixada, tá visto!


9 comentários:

Vania San disse...

Que coisa mulher!

Mas vc hoje tem consciência de que foi uma criança normal!

Eu sempre fui das "magricelas" que detestavam comer... ironia do destino: meu filho é hoje como eu era, ele come apenas para poder continuar brincando! Odeia que se tenha que comer mais de uma vez por dia!

Enfim!

Mas vim aqui te desejar um feliz natal, dizer que adorei de conhecer em 2008 e espero que consigamos conquistar saúde física e mental em 2009 (porque agora estou quase certa de que vc é uma magra que não percebeu ainda que já está bem!)

Beijos e se cuida muito!

Su disse...

Sabes que mais? É preferível ser gorda e sem paranóias do que ter anorexia!

O ideal é mesmo ficar pelo meio, já que nenhum dos dois extremos me parece bem!

Beijocas e BOM NATAL!!!

Sakura (Ana Sofia) disse...

bem... apesar d m ter revisto nexa história, na minha família era ks tudo o oposto! eu era a criança magrelinha c kem andavam sp a correr p o médico pk eu comia demais e parecia uma etíope. axavam keu tinha bicha solitária. lmbrei-me dos meus avós (paternos) p kem comer merda era SAUDÁVEL (DAH!) e das comparações c os outros netos deles (inclusivé a minha irmã)keram todos gordos! P eles akilo era saúde.

Agora 2 à partes:
1. Nasci em 1980, n sei como eram as modas masn me parecem mt diferentes de quando eu tinha praí 6 anos (apesar d k eu só kria calções e calças pk era rapazola)
2. Curiosamente tb desconhecia casos de anorexia nervosa em homens mas recentemente até soube d um caso k já tinha acontecido há mts anos...


e o 3º à parte (mas n eeram só 2????) BOM NATAL, BOAAS RABANADAS, BOAS FILHOZES, BONS SONHOS E POR AÍ FORA!!!!!

Flávia disse...

Pá,

Eu (ainda bem) não passei por essas situações doidas na minha infância. Era bem magrinha mas sempre fui muito saudável e ativa e nunca tive ninguém me enchendo por comer ou deixar de comer.

No teu caso...porra, que complicação! rsrsrs
Ser anoréxico é uma merda, é doença e quem quer ficar doente?
Mas ser obeso é uma merda também, é doença também.
O que não dá é para tratar o oposto de ser obeso (que é ser magro) com ser anoréxico! Estou cansada de ver as pessoas fazendo isso.

Entre a anorexia e a obesidade existe o meio termo, o peso saudável, com o qual nos sentimos bem. É isso que temos que buscar e sem loucuras, porque se for com loucuras, deixa de ser saudável!

Beijos

Tágide disse...

Desejo-te um Santo e Feliz Natal.
Beijufas

estelinha disse...

Oi, Papi!
Pois eu cresci numa familia de gordos, dos 2 lados.E quem não era, hoje é.Sempre fui gorda, desde que nasci...tenho só uma foto em que era normal, com 6 anos de idade e a guardo como uma relíquia.E estou tentando passar algo de saudável pras minhas filhas, porque não quero que elas sofram os mesmos preconceitos que sofri.
Beijos e um Feliz Natal, pra ti e tua familia!

Anónimo disse...

Bem...muito estranho essas manias das dietas em plenos anos 80 e 90.

Sempre vi a coisa muito generalizada no povo português de que a gordura é formuzura. Ainda para mais nessas décadas.

Realmente tens aí uma família que dá 'pano pra mangas'!!!

Beijo e boas rabanadas!

Luna Leve

Violeta disse...

jesus! que berço o teu!

Olha o meu caso é parecido com o teu, mas a parte da minha familia que me chama constantemente de gorda ão tem essas paranóias (até porque comem bastante e são redondos, mas só eu é que tou gorda ali!)

Espero que tenhas tido um natal fabulástico

Beijo

Antonio B Duarte Jr disse...

Gosto muito dos artigos de ótima qualidade do seu Blog. Quando for possível dá uma passadinha para ver minha página sobre emagrecimento. Antonio B Duarte Jr.