
A miúda da foto acima sou eu, com uns nove ou dez anos, aí por volta de 1980.
(Convém dizer que a data para perceberem que a roupa era mesmo assim estranha!)
E porque é que meti esta foto? Porque foi mais ou menos nesta fase que comecei a ser tratada como gorda na minha família materna. O meu primo, um magricela a quem eu subjugava facilmente nas brincadeiras, de vingança começou a tratar-me por “saco de batatas”. Exceptuando os meus pais, toda a gente achou piada à coisa, até porque eu era nitidamente gordinha. Para ser mais exacta: eu era a criança mais gorda da família e ninguém deixava de me dizer isso.
E agora vocês perguntam… “Mas olha lá, tu não te enganaste na foto? Essa é duma criança perfeitamente normal.”
A verdade é que eu era uma criança normal. Tive foi o azar de nascer numa família onde ser gordo era e é inadmissível. Onde a comida é encarada como funcional, já que se tem que sobreviver, mas enfim… nada de lhe dar importância.
Raramente vi a minha avó sentada à mesa, tenho um tio que devo ter visto comer umas 3 ou 4 vezes na vida. O outro come bastante… quando se lembra, o que quer dizer que raramente come mais do que duas vezes num dia.
O meu primo magricela não gostava de comer e a idiota da minha tia não via nada de mal no assunto, afinal era adolescente, tinha mais coisas em que pensar do que em comida. Para perceberem: só quando o rapaz desmaiou aos 16 anos, com 1.92 e 65 kg e o médico lhe disse que ele estava bastante doente, é que ela percebeu que ele não era apenas “magro”. Há vinte anos atrás, era raríssimo encontrar rapazes com anorexia nervosa. O meu primo era dos pouquíssimos do país. A mãe dele, sempre que chega aos 55 kilos jejua, faz “o que for preciso”. Quando aos 40 e poucos anos teve que fazer uma histerectomia e engordou horrores (comenta-se na família que chegou a pesar 65, coitadinha…) simplesmente não saía de casa com vergonha. Não faço ideia do que fez para perder os quilos, mas dieta saudável não foi de certeza.
A outra tia? Teve um filho aos 18 e recuperou logo a forma. O segundo teve-o aos 35 e a coisa já não correu tão bem, já não era magrinha, era normal. Ora a minha tia nunca quis ser “uma vaca gorda”. Para encurtar a história: entrou numa de jejuns, seguidos de períodos de chás e torradas. Ocasionalmente uma sopa, um peixe grelhado. Mas quase todos os dias bebe um copo de leite, do mal o menos.
Tem 60 anos, uns 40 kilos, anemia crónica, problemas renais e cardíacos. Volta e meia vai parar ao hospital subnutrida. O diagnóstico? anorexia nervosa, intercalada de fases de bulimia. Conseguiu a rara proeza de se tornar anoréxica depois dos quarenta anos.
Por razões que não interessam agora, cresci mais liga à família materna do que à paterna, gente absolutamente normal, capaz de comer três tipos de doces numa festa. Tem uns dois ou três “focos” de gordos, mas 80% da família é normal. Uns por natureza, como o meu pai e alguns irmãos, outros por disciplina, quanto mais não seja pelo medo aos AVC e problemas cardíacos que ensombram o historial genético da família.
Cresci duma forma verdadeiramente bipolar: na família materna era gordinha e gulosa (era capaz de comer dois pães seguidos!), na família paterna era magra e faziam mil e um malabarismos para me convencerem a comer carne, já que eu praticamente só gostava de peixe. Se eu comesse um segundo pão era porque “estava a crescer”. Uma tia velhota do meu pai fazia uma broa fantástica e guardava sempre o pedaço mais bonito para “a menina, que coitadinha, é muito biqueira”.
Mas como convivia mais com a família materna, estava mesmo convencida que era gorda. Pior: tinha mamas, coisa pouco habitual por aquelas bandas. Agora olho para fotos da adolescência e percebo que não era gorda porra nenhuma.
Só depois dos vinte anos, quando os meus primos começaram a namorar e casar é que eu percebi mesmo que eles é que não eram normais. Lembro-me de comentarem que o meu primo namorava com uma gorda e quando a vi tive um choque do caraças: era mais ou menos como eu de peso, mas com uma figura de ampulheta invejável.
Casaram, são felizes, mas volta e meia ela vai comer fora das vistas do meu primo. Não que ele a proíba de comer, claro. Mas o olhar dele de horror perante uma tosta mista é verdadeiramente irritante. Dá vontade de lhe pespegar com o queijo quente nas trombas!
Aliás, foi esta prima emprestada que me disse um dia “olha… não é que sejam más pessoas, mas não são normais. A relação deles com a comida é doentia e eu não paciência para os aturar à mesa”.
E isto leva-me às festas de Natal e afins: como ninguém tem paciência para cozinhar (nem para comer, carago!), compra-se um leitão assado, umas frutas, os bolos típicos e pronto. A mesa não chega para todos? Claro que não vão buscar outra! Simplesmente, comem à vez. Nunca vi toda a gente sentada à mesa a comer… quando muito cirandam à volta da mesa, petiscam e tal. Estar “alapado” à mesa é coisa de gente glutona.
Tirando a minha mãe, ninguém naquela família cozinha decentemente. Vivem de sopa (a única coisa que toda a gente sabe fazer!), fruta, leite e queijo. E café, litros de café.
No meio de tudo isto, tento encontrar o meu caminho. Se por um lado saio à família paterna e gosto de comer, por outro, não escapei à herança materna: não gosto de ser gorda, odeio ver corpos balofos e não acredito lá muito que se possa verdadeiramente ser feliz com muitos kilos a mais.
E sabem que mais? Este Natal vou comer rabanadas e pão-de-ló. Mas vou-o passar com os meus pais, longe da paranóia da família materna e das mesas fartíssimas da paterna.
Equilíbrio, é isso que procuro!
ps - a mami ligou, a "prima Rosa", herdeira do talento para cozer broa da "tia Rosa", mandou uma broa de milho e centeio linda "pra menina". Tou lixada, tá visto!